sábado, 24 de maio de 2008

Minhas Primeiras Experiências

Com meu amigo Apolônio Aguiar: Apropriação de imagens de filmes, programas televisivos e vídeos reconhecidos para experiências narrativas com justaposições inusitadas. Edição realizada através de dois vídeos caseiros VHS. Um deles, emprestado do vizinho. A princípio, esses experimentos seriam inseridos antes dos créditos finais de fitas de grandes locadoras de filmes comerciais. Fortaleza/ CE/ 1998

Um Pedaço de Mim que Sobrou

ESCUTA-SE PÍFANOS ENTOANDO UM FREVO

BUFÃO (entra pulando e dando cambalhotas com um daqueles guarda-chuvas típicos para se dançar o frevo. ao público) – Verdade. não estou com a língua qu’eu vi com esses olhos! não estou com os dentes qu’eu escutei com esses ouvidos! (o frevo acaba. põe o guarda-chuva entre as pernas e com as duas mãos, deforma seu rosto, como uma máscara: com os dedos, esticando os cantos dos lábios, com a boca aberta, a língua exposta, arregalando os olhos e ficando com o ouvido esquerdo inclinado. pausa. volta a uma postura “normal” põe o guarda-chuva próximo ao genuflexório. procura uma garrafa de vinho e a pega. traga um gole do vinho no gargalo e oferece ao público. com a garrafa de vinho na mão. com firmeza ao público.) é. sim senhor! sei da pobreza e das tribulações que um povoado bem perto daqui sofreu e ainda chora. onde cada cidadão vivia o seu inferno, quando o silêncio calava todas as almas. (agressivo, traga outro gole) onde todos bebiam o vinho, mas o vinho, o sofrimento e a luxúria. (traga outro gole) um povoado embriagado na solidão e na desordem, fronteiriço à devassidão. (traga outro gole e joga a garrafa, mas sem quebrar, em algum dos cantos da sala. escuta-se rabeca e pífanos entoando uma canção melancólica, barroca ou “regional”) onde moravam os bêbados, os avaros e os loucos. (“normal”) um povoado chamado Trombetas. onde existe uma santa, mas não é santa, antes fosse excomungada, mas acabou santificada. (com firmeza. a canção acaba) sim! Santa Beata das Trombetas! (pausa) fiquei sabendo muitas verdades d’uma boca (vai tirando um punhal ou uma faca enferrujada escondida na cintura. olha a faca) que vomitava uma faca de dois gumes: (vai encostando a faca como se estivesse perfurando o pescoço e tira, duas vezes) um padre e uma jovem beata. (joga a faca perto do genuflexório) foi quando perambulava nos arredores de Trombetas. (pausa) conheci tal boca d’um ancião que fora criança quando nascia esse povoado. (com feições de assombro) tudo sabia, tudo me contou e agora lhes ofereço os segredos de Trombetas. (olha para vários cantos do teatro: como se perseguisse o público com o olhar. fica corcunda, anda com dificuldades, vai até o genuflexório e pega a faca. com a voz gutural, rouca) mas só contarei numa condição. peço somente... quando cruzarem com qualquer ancião perto de Trombetas, não digam que fui eu inquisidor dessas verdades. não quero (batendo o aço da faca na cabeça) perder minha cabeça, pois de muito uso eu faço. me amaldiçoei (com a faca no pescoço) prometendo que a degolassem, caso contasse a alguém os segredos, pois me foram cofiados a sete chaves de língua e a palavra dada. (com uma postura “normal”, procura o guarda-chuva, pega, depois o abre, um frevo é entoado por pífanos, segura com uma das mãos o guarda chuva e fica como se protegesse de uma chuva: com a faca numa mão e o guarda-chuva noutra) mas confio em vossas bocas e sei que não me revelarão, (com firmeza, apontando a faca para o público) pois preciso anunciar essas verdades por onde eu passar e for bem acolhido, como seus lares donde aqui estou. (o frevo acaba e rabecas entoam uma canção melancólica e dissonante. agressivo, apontando o guarda-chuva para o público) precisam todos saber, quando a árvore da vida secou suas raízes em Trombetas, (rápida pronúncia e sussurrando) onde o inferno reinou, a lua sangrou e o sol escureceu. (girando em torno de si lentamente) foram anos, quando não mais chuva caía e a seca castigava, o povoado mergulhava na miséria. (joga a faca num canto da sala, o guarda-chuva noutro e cai ao chão. a canção das rabecas acaba) era muita fome. havia quem não mais (levanta-se com dificuldades) sustentasse a perna. um dia, uma jovem beata resolveu acabar de vez com aquela pobreza toda. (com as mãos juntas como se rezasse) acreditava piamente nos milagres e na fé depositava sua esperança. (com firmeza) existia também um padre que queria o mesmo. (procura a faca e a pega) mas para ele, Deus só daria ao homem o punhal flamejante para o combate com a serpente da miséria. (ergue a faca, agressivo) só o punhal das mãos do homem cortaria a cabeça da serpente e a fome findaria então. (abaixa a faca e a segura como se rezasse) para os antigos, os mais religiosos de Trombetas, talvez só existisse um jeito para a chuva voltar naquela região castigada: (deixa a faca cair e gira em torno de si) quando se realizasse a procissão de São José das Trombetas. (procura a imagem do santo e a pega) a imagem do santo da paróquia era levada até (finge deixar a imagem cair e depois sorri) um cemitério perto do povoado vizinho, (deixa a imagem no chão e pega uma pedra) numa longa procissão. (corcunda, coloca a pedra na cabeça e caminha de um lado para o outro. voz gutural) onde os devotos , numa penitência, levavam pedras na cabeça e rezavam incansavelmente um mantra cerimonial: (rezando em voz alta ou canto das beatas com uma rabeca melancólica acompanhando a oração. girando em torno de si) São José das Sete, São José das Trombetas, dai-nos água que nos molhe, dai-nos pão que nos sustente! São José das Sete, São José das Trombetas, dai-nos água que nos molhe, dai-nos pão que nos sustente! (cai ao chão com a pedra e vai rastejando até a imagem do santo. um violoncelo entoa uma canção melancólica) o santo ficaria separado da igreja até a chuva voltar. em meados de março, se respingos começassem a cair, numa outra procissão, (rolando pelo chão com o santo) seria devolvido o santo a sua igreja. se não chovesse, o santo ficaria desprezado eternamente no cemitério ao relento. (deitado, fica jogando de uma mão para a outra a imagem) uma cerimônia que há muitos anos havia sido esquecida, mas que essa jovem beata e os devotos resolveram trazer a luz. para eles a única salvação. para o padre, a alienação. (vai levantando-se com dificuldades. lentamente põe a pedra, o guarda-chuva, o vinho e a faca próximos ao genuflexório e coloca o santo no altar. a canção do violoncelo acaba e um frevo é entoado por pífanos. tirando o chapéu, saúda o público. Põe o chapéu na arara, pega a batina, veste-se, pega uma bíblia, senta-se numa cadeira e começa a folhear a bíblia. o frevo acaba. entra a BEATA)

O Vagabundo Na Folia

Aos diabos!
Esse pagode vai dar couro de gato
Nossa sina é querer tudo p’ro nada
Essa mania de ver as coisas irem p’ro mato
É morrer sem nó, dá nó sem morrer
Hoje fiz a fé e apostei no gato
Quem sabe, sortudo,
De repente pode ser sapo-boi,
Mendigo, velhaco, curimatã,
Recebam o santo brejeiro
E bem mais um bocado
Não sei se jogo fora essa ganância
Ou se boto tudo no bolso e encho a pança
Aos quiabos!
Quero ver essa pajelança rodar a baiana
E com um tiro certeiro perder os corações alheios
Já foi-se um, dois, três, milhares
Todos amontoados no pé-de-serra...
Todos atordoados em pé-de-guerra...
Não precisamos fechar os olhos
Tanto o cano torto da direita,
Como o escapamento da velha esquerda
São facetas da mesma cruzeta
Corre, malandro, corre!
Aos bem-aventurados, minha pergunta:
Até quando, eu, meus filhos e irmãos seremos castrados?!
Calango velho, escaldado pelo rabo do cometa,
Olha a fumaça nos olhos,
Olha o cotovelo nas narinas
Senão tu vai lamber o rabo do braseiro até romper tua ferida
Já morei aqui, não moro mais...
Já morri aqui, não choro mais...
Já no gatilho, foi um cortiço
Era pancadaria, fuá, tiroteio e cochicho
Nesse tempo eu morava aqui, nessa velha casa...
Era ambulante nesse tempo, vendia de tudo
Olha o besouro, olha a lagartixa,
Olha o beijo do piolho na fogosa joaninha
Era o rei da folia!

domingo, 18 de maio de 2008

Garage Cinema

The Dreams: imagetic remains of daily life and memory, plastic distortion, fragmentation of the body, imaginary landscapes. The Subversion: issues between art and politics and, mostly, the will to make films. The Ungly, The Dirty & The Bad: those that satirize the use of images and laugh of the cliches of art, publicity and cinema itself; the carnavalization of that which is audiovisual. The everything will be destroyed. In the magazine Wired [Feb./1997], George Lucas prophesized a near future in which everyone will make films in their own garage. This is context for the Garage Cinema: research and esthetic experiences in search of the full possibilities of images based on meager resources.

Dellani Lima [Tuca]
Curatorship
(Garage Cinema)
Indie 2006 - Mostra de Cinema Mundial
http://www.zetafilmes.com.br/indie/outras/indie2006/english.html

Dreams Follow Your Mouth

dedicated to
Orlando Senna, Maurice Capovilla, Roberto Moreira S. Cruz and to all Dreamers

The first flow, still immaculate,
Non-polluted at the source, still unthreatened.
Feeling of freedom. A privilege.
Endless creativity. Unending subversion.
Direct protest and creation. Different hours.
All that we bring in thought: just dreaming for a instant
The image has given us much. And had made us live a precious time forgotten.
We used to walk in the darkest nights. Avoiding danger.
Later, when we wake up, images escape, like water.
And to know ourselves, we need to find ourselves. Images are more than this.
We also need to live. But eyes cannot perceive.
Our pupils do not dare open. Our lips refuse to speak.
We know not whether beauty comes only from the heart or from images.
Images move. And images are not empty.
They have something to say. What they have to say is not set.
Do they say anything? Or do they say nothing.
The image itself, an oniric process.
In an eternal dream, image is energy. The heart is gone.
But images cannot be treated as something or as nothing.
Neither discourse neither silence. The image will find itself.
Images cannot force the heart to think.
The heart cannot force images to move or to rest.
Desire is the essence itself of man. The passion of games.

Dellani Lima [Tuca]
Curatorship
(Garage Cinema)
Indie 2007 - Mostra de Cinema Mundial
http://www.zetafilmes.com.br/indie/outras/indie2007/ing/ab.asp?mostra=cg&filme=&qtd=

sábado, 17 de maio de 2008

Lao Tzu

- as cinco cores cegam a visão do homem. os cinco tons ensurdecem a audição do homem. os cinco sabores embotam o paladar do homem.
- the five colors blind the eye. the five tones deafen the ear. the five flavors dull the taste.